Pesadelo Americano: O Racismo e o Cinema de Terror

We don’t see any American dream,
we’ve experienced only the American nightmare. 
- Malcolm X


Por vezes há filmes que estreiam no momento perfeito. “Get Out” de Jordan Peele chegou às salas exactamente no mês da passagem de testemunho de Barack Obama para Donald Trump, o presidente que iria comprovar a teoria central do filme: a falácia da era pós-racial. Este tipo de presciência cinematográfica já havia acontecido antes, num dos filmes seminais do terror moderno, “Night of the Living Dead”, lançado no ano quente de 1968.

A obra-prima de George Romero tinha pela primeira vez na história do cinema norte-americano um protagonista negro, apesar de ter sido escrito inicialmente tendo em conta um actor branco. Esta simples mudança permitia que o final em que Ben é ‘confundido’ com os mortos-vivos e morto por uma milícia branca, evocasse o assassinato de Martin Luther King, ocorrido pouco depois do fim das filmagens. 

O desenlace de “Night of the Living Dead” era particularmente desesperante e não fazia mais do que testemunhar a condição da comunidade negra nos EUA daquela época. Jordan Peele, tendo isso em mente, optou por um final “ficcional” para o seu “Get Out”, isto é, o protagonista salva-se sem ser morto ou preso. Neste caso, a ficção permitiu corrigir o real, na esperança de que essas duas categorias se pudessem inverter neste lado do espelho. Infelizmente, no mundo real não houve ficção que salvasse George Floyd (e muitos outros) – o vídeo da sua detenção, ou melhor do seu homicídio, é o mais terrível dos filmes de terror. 

Este ciclo pretende através do género, tal como fez Peele, mostrar um filme diferente daquele que estamos habituados a ver. Trata-se de uma selecção de sete filmes de terror cujo tema principal é o racismo nos EUA e, ao contrário do que se poderia supor, neste género é possível acordar deste “pesadelo americano”. Do idealismo de “The Intruder” à análise crítica de “Ganja & Hess” e “White Dog”; da catarse de “The People Under the Stairs” e “Tales from the Hood” ao épico “Candyman” terminando no pragmático “Get Out”, todos eles são precursores cinematográficos do movimento “Black Lives Matter”.
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