Centenário Roger Corman

Visitou-nos em 2017, na 11.ª edição, e, se ainda fosse vivo, faria 100 anos em 2026. O MOTELX, tal como vários festivais da Federação Méliès — que não existiriam sem o trabalho de Corman —, junta-se a esta justíssima homenagem.

Nascido em Los Angeles, em 1926, Roger Corman teve o primeiro emprego na 20th Century Fox, como messenger boy, antes de se tornar story analyst. Depois de uma passagem por Inglaterra, onde frequentou estudos de pós-graduação em Literatura Inglesa Moderna, regressou a Hollywood e começou a trabalhar como argumentista, passando gradualmente para a realização. O seu terceiro filme, The Fast and the Furious, seria o primeiro distribuído pela American International Pictures (AIP), produtora onde desenvolveu grande parte da sua carreira.

A AIP percebeu rapidamente que havia um público ignorado por Hollywood: adolescentes e jovens adultos. Sobre esta faixa demográfica construiu um modelo de negócio baseado em filmes baratos, produzidos rapidamente e pensados para sessões duplas, muitas vezes em drive-ins, ao lado de uma produção de série A. Corman tornou-se assim um dos grandes mestres da série B, transformando as limitações orçamentais numa verdadeira linguagem cinematográfica. Filmes como Bloody Mama, Machine Gun Kelly, The Wild Angels e The Trip exploravam temas contemporâneos — a contracultura, a violência, as drogas e a rebeldia juvenil — e o seu sucesso ajudou a abalar as fundações do velho sistema de estúdio.

Entre 1960 e 1964, com a célebre série de adaptações de Edgar Allan Poe, Corman consolidou o seu lugar na história do cinema. Recorreu à cor, ao scope, a uma atmosfera profundamente estilizada e a conceitos freudianos para reinterpretar o universo de Poe. The Fall of the House of Usher inaugurou a série, introduzindo técnicas visuais e dispositivos narrativos que seriam desenvolvidos nos filmes seguintes.

O cinema de Corman era feito a uma velocidade quase impossível: alguns filmes chegaram a ser rodados em pouco mais de dois dias. Dessa produção frenética nasceram objetos de culto como The Little Shop of Horrors e A Bucket of Blood, ajudando a criar um território novo entre o horror e a comédia.

Mas talvez o seu maior legado esteja nas pessoas que passaram pela sua escola: Francis Ford Coppola, Joe Dante, Peter Bogdanovich, Monte Hellman, Martin Scorsese, James Cameron, Jonathan Demme, Jack Nicholson, Gale Anne Hurd ou Ron Howard, entre muitos outros. Conhecidos como a Escola Corman, estes cineastas levaram consigo uma lição fundamental: fazer muito com pouco e desafiar as regras do sistema. Mais do que o “Rei da Série B”, Roger Corman foi um dos inventores do cinema independente moderno — provando que, muitas vezes, estar à margem do sistema é a melhor forma de mudar o cinema.
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