Prémio Noémia Delgado para Mulheres Notáveis no Terror
“É um dos universos mais consistentes e singulares do recente cinema português.”
Jorge Leitão Ramos, “Dicionário do Cinema Português” (1989-2003)
Depois de ter sido homenageada pelo MOTELX com uma retrospectiva na secção Quarto Perdido, dedicada na íntegra aos seus filmes de género, em 2018, Solveig Nordlund recebe agora o Prémio Noémia Delgado, que distingue mulheres pioneiras no cinema fantástico e de terror — sendo, no seu caso, também uma das vozes mais singulares e inovadoras da cinematografia portuguesa.
Nascida na Suécia, Solveig Nordlund fixou-se em Portugal após casar com o realizador Alberto Seixas Santos. Integrada no Centro Português de Cinema, trabalhou como assistente de realização e montadora ao lado de alguns dos maiores nomes nacionais, entre eles João César Monteiro, Manoel de Oliveira, João Botelho e Fonseca e Costa.
O seu universo autoral revelou-se desde a estreia na ficção com a curta-metragem “Nem Pássaro Nem Peixe”, onde cruza o Portugal do pós-25 de Abril com o imaginário de H. P. Lovecraft. Tornou-se, assim, a primeira cineasta a adaptar o criador do terror cósmico ao cinema português, um feito que só décadas mais tarde voltaria a repetir-se pelas mãos de Edgar Pêra.
A estreia na longa-metragem surgiu em 1983 com “Dina e Django”, uma tragédia amorosa inspirada num caso verídico de um jovem casal homicida lisboeta. Mas foi sobretudo nos anos 90 que consolidou um universo muito próprio, frequentemente centrado na infância e atravessado por elementos do fantástico.
Em “Comédia Infantil”, filmado em Moçambique, acompanha uma criança dotada de poderes sobrenaturais; em “A Filha”, realiza um dos mais intensos e assumidos exercícios de terror psicológico do cinema português, injustamente esquecido aquando da sua estreia; e em “Aparelho Voador a Baixa Altitude” imagina um futuro pós-apocalíptico onde deixaram de nascer crianças e as poucas sobreviventes são mutantes.
Apesar de ao longo da carreira ter adaptado autores como António Lobo Antunes, Mia Couto ou Richard Zimler, foi na obra do escritor britânico J. G. Ballard que encontrou um dos seus territórios criativos mais férteis. Depois de lhe dedicar o documentário “J. Jorge Leitão Ramos, “Dicionário do Cinema Português” (1989-2003). Ballard – The Future is Now”, realizou duas curtas-metragens – “Journey to Orion” e “Umas Férias Fantásticas” – e a longa “Aparelho Voador a Baixa Altitude”, tornando-se a mais consistente intérprete cinematográfica da obra de Ballard e a mais respeitada pelo próprio escritor.
Pela coerência de uma filmografia que nunca receou explorar o fantástico, pela originalidade do seu olhar e pelo contributo decisivo para a afirmação do cinema de género em Portugal, é com enorme orgulho que o MOTELX atribui a Solveig Nordlund o Prémio Noémia Delgado.
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